Prof. Diego Marihama

Educação Disruptiva

Seja bem-vindo ao site do Prof. Diego Marihama!

A observação de aula como prática institucional: caminhos para uma atuação assertiva das equipes pedagógicas

Entrevista realizada no dia 24 de maio de 2025, por ocasião da visita do Prof. Dr. Diego Kenji de Almeida Marihama a Luanda/ Angola, no contexto do Congresso Internacional de Educação, Engenharia e Desenvolvimento Sustentável.

A observação de aula tem ganhado cada vez mais espaço no debate educacional como uma estratégia fundamental para o aprimoramento das práticas pedagógicas. No entanto, ainda é comum que ela seja associada a processos de fiscalização, gerando resistência entre professores.

Para compreender melhor esse cenário e apontar caminhos possíveis, conversamos com um especialista em gestão pedagógica sobre como transformar a observação de aula em um processo formativo e significativo. Para aprofundar essa discussão, a Universidade Católica de Luanda, em parceria com a Rádio da Faculdade Metropolitana de Luanda, entrevistou o Prof. Dr. Diego Kenji de Almeida Marihama, especialista em gestão pedagógica e formação de professores.

Oscar Kinganga: Prof. Diego, a observação de aula tem sido reconhecida como uma estratégia que convida as escolas a revisitar suas práticas, alinhar intencionalidades e fortalecer os processos formativos. Nesse contexto, ela deixa de ser apenas uma possibilidade e se torna uma necessidade institucional, especialmente para as equipes pedagógicas que desejam promover aprendizagens mais significativas. Gostaríamos de iniciar nossa conversa compreendendo como a observação de aula pode contribuir para a construção de uma cultura pedagógica mais reflexiva, colaborativa e orientada por evidências.

Oscar Kinganga: Prof. Diego, qual é a importância da observação de aula no contexto educacional?

Prof Diego: A observação de aula é uma das práticas mais fundamentais que temos hoje para promover o desenvolvimento profissional dos docentes e melhorar a aprendizagem. Quando compreendida como um dispositivo formativo, ela deixa de ser um instrumento de controle e passa a favorecer o diálogo pedagógico, a reflexão crítica e a construção coletiva de saberes. Do mesmo modo, permite tornar visíveis práticas que muitas vezes ficam implícitas no cotidiano escolar, possibilitando análises mais detalhadas e intervenções mais assertivas.

Oscar Kinganga: Ainda há certa resistência por parte dos professores. A que o senhor atribui isso?

Prof. Diego: Essa resistência está muito relacionada à forma como a observação foi historicamente utilizada nas escolas. Em muitos contextos, ela foi associada a processos avaliativos, o que gerou insegurança e desconforto. Por isso, é fundamental que as equipes pedagógicas ressignifiquem essa prática, construindo uma cultura baseada na colaboração. Quando o professor entende que a observação é um apoio ao seu desenvolvimento, e não uma fiscalização, o processo ganha outra dimensão.

Assim, a observação abre espaço para um diálogo pedagógico mais profundo sobre as práticas, as intencionalidades e as escolhas didáticas realizadas em sala de aula. Ela possibilita a articulação entre diferentes olhares: o olhar do próprio professor sobre sua prática e o olhar externo do observador, que, ao não estar imerso na dinâmica cotidiana da aula, consegue identificar aspectos que muitas vezes passam despercebidos. Esse encontro entre olhares internos e externos amplia a capacidade reflexiva, permitindo revisitar concepções, explicitar ideias e enriquecer o planejamento. Nesse sentido, a observação deixa de ser um registro do que acontece e passa a ser uma prática de construção de sentido, no qual prática e reflexão se entrelaçam no processo de ensino e aprendizagem.

Oscar Kinganga: Quais são os princípios que devem orientar uma observação de aula assertiva?

Prof. Diego: Eu destacaria cinco princípios fundamentais: intencionalidade, foco, objetividade, ética e colaboração. É essencial que a observação tenha um propósito claro e que o olhar esteja direcionado para aspectos específicos da prática pedagógica. Além disso, é preciso registrar evidências concretas, evitando julgamentos, e conduzir todo o processo com respeito.

Oscar Kinganga: E durante a observação em sala, quais cuidados são necessários?

Prof. Diego: O observador precisa adotar uma postura discreta, evitando interferir na dinâmica da aula e reduzindo ao máximo qualquer perturbação no ambiente de aprendizagem, preservando a naturalidade das interações pedagógicas. Esse cuidado é essencial para que a aula observada represente, o mais fielmente possível, a prática cotidiana do professor, ainda que saibamos que toda observação altera, em alguma medida, o comportamento dos envolvidos. O olhar do observador deve ser intencional e analítico, orientado por focos previamente definidos, como indicam os instrumentos de observação, que destacam dimensões como gestão da sala, interação, discurso docente e participação dos alunos.

Neste contexto, é importante considerar não apenas a atuação do professor, mas também as interações entre os alunos, o clima da sala de aula e a forma como as atividades são conduzidas, uma vez que a observação não se restringe ao ensino, mas abrange todo o ecossistema da aprendizagem. O observador deve estar atento às evidências que revelam como os alunos aprendem, participam e se engajam, ampliando o olhar para além da prática docente em si. Nesse sentido, observar implica diferenciar o simples “ver” de um processo intencional de análise, que exige critérios.

Outro cuidado fundamental diz respeito ao registro das evidências. É necessário que esse registro seja detalhado, objetivo e descritivo, evitando julgamentos ou interpretações precipitadas, ou seja, a qualidade do feedback depende diretamente da forma como os dados são coletados e organizados durante a observação. Por isso, utilizar instrumentos estruturados, como pautas e fichas de observação, contribui para garantir maior consistência e profundidade na análise.

É importante considerar também, que o observador deve reconhecer que seu olhar é sempre uma interpretação possível da realidade, e não a realidade em si. Esse exercício de consciência profissional amplia a escuta, qualifica a análise e fortalece a construção de devolutivas mais dialógicas, colaborativas e formativas, alinhadas ao objetivo maior da observação: promover o desenvolvimento docente e a melhoria das aprendizagens.

Oscar Kinganga: A devolutiva é frequentemente apontada como o momento mais sensível. Como ela deve ser conduzida?

Prof. Diego: A devolutiva é, de fato, o coração do processo. É nesse momento que a observação se transforma em aprendizagem. Ela precisa ser dialógica, baseada em evidências e orientada para a reflexão. Começar pelos pontos fortes é essencial para construir um ambiente de confiança. Do mesmo modo, é importante utilizar perguntas que estimulem o professor a pensar sobre sua prática e, a partir disso, construir encaminhamentos concretos. A devolutiva não pode ser um julgamento, mas um espaço de desenvolvimento, em que gera encaminhamentos concretos, com definição de metas e possibilidades de acompanhamento. Quando articulada a um processo contínuo, ela deixa de ser um evento isolado e passa a integrar um ciclo formativo mais amplo, contribuindo efetivamente para a melhoria da prática docente e das aprendizagens

Oscar Kinganga: De que forma as observações podem contribuir para a gestão pedagógica da escola?

Prof. Diego: Quando sistematizadas, as observações se tornam uma fonte extremamente rica de dados para a gestão pedagógica, pois permitem compreender, com maior profundidade, como a escola ensina, se comunica pedagogicamente e organiza suas práticas em sala de aula. Esse conjunto de evidências contribui diretamente para organizar as temáticas das formações continuada, uma vez que revela necessidades formativas reais, ao mesmo tempo em que possibilita identificar e externalizar boas práticas existentes na instituição.

Nesse movimento, a observação de aula se fundamenta como uma ação integrada e não isolada, articulando-se a um processo mais amplo de desenvolvimento institucional, orientado pela reflexão, pela evidência e pela melhoria contínua.

Oscar Kinganga: E quanto à externalização das práticas pedagógicas, qual é o papel da observação?

Prof. Diego: A observação tem um papel fundamental nesse processo, pois permite tornar visíveis as práticas de sala de aula para toda a comunidade escolar, ampliando a compreensão sobre o que, de fato, acontece nos diferentes contextos de ensino e aprendizagem. Quando essas práticas são sistematizadas, ou seja, registradas, analisadas e organizadas a partir de focos definidos, a escola passa a compartilhar e construir uma leitura mais clara, consistente e compartilhada de sua ação pedagógica.

Oscar Kinganga: Para finalizar, qual é o principal desafio para as equipes pedagógicas hoje?

Prof. Diego: O principal desafio hoje é transformar a cultura da observação nas escolas. Isso implica sair de uma lógica historicamente marcada pelo controle e pela avaliação pontual e avançar para uma perspectiva formativa, colaborativa e reflexiva, na qual a observação esteja integrada ao desenvolvimento profissional docente e institucional.

Esse movimento exige compreender que a observação não é um evento isolado, mas parte de um ciclo que envolve planejamento, acompanhamento, devolutiva e formação continuada. Ao observar de forma intencional dimensões como gestão da sala, interação, discurso docente e participação dos alunos, a escola passa a construir uma leitura mais clara e estruturada de suas práticas pedagógicas. Isso permite dar visibilidade ao que de fato acontece nos diferentes ambientes de aprendizagem, superando percepções fragmentadas ou intuitivas.

Nesse sentido, a observação contribui para dar maior clareza institucional, pois conecta diretamente as práticas docentes às aprendizagens e às intencionalidades do projeto pedagógico. Quando acompanhada de devolutivas e de espaços de formação, ela possibilita que as evidências coletadas sejam transformadas em ações concretas de melhoria, tanto no nível individual quanto coletivo.

Ademais, ao ser articulada a processos de formação continuada e a uma cultura de diálogo, a observação favorece a construção de comunidades de aprendizagem dentro da escola, nas quais professores e equipe pedagógica compartilham práticas, analisam desafios e constroem soluções de forma conjunta, ou seja, a observação só se torna efetiva quando está integrada a um conjunto mais amplo de ações institucionais e alinhada ao projeto político-pedagógico.

Portanto, não se trata de um processo simples ou imediato, pois envolve mudança de mentalidade, reorganização de práticas e fortalecimento das relações. No entanto, quando bem conduzida, a observação de aula deixa de ser um instrumento de controle e se consolida como uma ferramenta fundamental de transformação da educação, capaz de enriquecer as práticas, fortalecer a identidade pedagógica da escola e promover aprendizagens mais significativas.

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.