Hoje, a Pastoral Universitária e a Pastoral da Comunicação recebe o Coordenador do Setor Universidades da CNBB Nacional, Prof. Dr. Diego Kenji de Almeida Marihama, para a entrevista: A Cruz como revelação do sentido.

A entrevista acontece em um momento significativo: no dia 31 de março, data em que esta entrevista é concedida, o Prof. Diego Marihama acolhe cerca de 160 gestores, religiosos provinciais e membros de governo para um encontro voltado à reflexão sobre educação, liderança e missão. É nesse contexto de escuta, diálogo e discernimento que fomos acolhidos no Colégio Santa Cruz – SP, para essa profunda reflexão sobre o mistério da Cruz como horizonte de sentido para a vida humana.
Mauro: Você comentou que há algum tempo não partilhava uma reflexão teológica. O que motivou esse retorno?
Diego: De fato, já há algum tempo não trazia uma reflexão teológica, mas uma segunda experiência com um fragmento do lenho da Cruz me provocou, ao rezar as Laudes com o Cântico da consolação e alegria na cidade santa (cf. Is 66,10-14a). Não foi apenas um momento devocional, mas um encontro que me fez retornar a quase 30 anos atrás. Diante daquele filete de madeira, senti-me novamente chamado a contemplar o mistério de Jesus.

Arquivo Pessoal – Paróquia São Lourenço
Dias após essa segunda experiência, ao ouvir um sacerdote da Diocese de Limeira, Pe. Alexandre Favreto, fui ainda mais provocado interiormente, o que me levou a retomar os estudos a partir do profeta Isaías e as 07 palavras de Jesus na cruz, e a aprofundar essa reflexão. Foi isso que me conduziu a dar forma a esse caminho teológico que hoje partilho.
Mauro: E por que essa experiência o levou especificamente ao profeta Isaías?
Diego: Porque o profeta Isaías é, talvez, aquele que mais profundamente antecipa o mistério da Cruz. Ele anuncia, cerca de setecentos anos antes, não apenas a vinda, mas também o ministério e o sacrifício de Cristo, oferecendo uma compreensão surpreendentemente clara do projeto de Deus.
Com grande precisão, Isaías anuncia: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, chamado Emanuel” (Is 7,14), apontando para um Deus que entra na história e caminha com o seu povo. Em outra passagem, proclama: “Um menino nos foi dado… Príncipe da Paz” (Is 9,5), revelando um reinado que não se impõe pela força, mas se estabelece na justiça, na reconciliação e na paz.
O profeta também apresenta a imagem do rebento do tronco de Jessé (Is 11,1), sinal de que, mesmo em meio à ruína e à aparente ausência de esperança, Deus faz brotar vida nova.
Mauro: O senhor poderia destacar algum trecho específico dessas profecias que se cumprem de modo mais evidente na Paixão de Jesus?
Diego: Sem dúvida, o chamado Cântico do Servo Sofredor (Is 52,13–53,12) é central. Ali encontramos a descrição de um homem justo, rejeitado, que “foi transpassado por causa de nossas transgressões, esmagado por causa de nossas iniquidades”. E há uma frase que é absolutamente decisiva: “pelas suas feridas fomos curados”. Quando olhamos para a Cruz, percebemos que não se trata apenas de dor, mas de um mistério de cura que brota justamente das chagas.
Isso quer dizer, à primeira vista, revela fragilidade, mas torna-se expressão de um amor que restaura. As feridas deixam de ser apenas marcas de morte e passam a ser sinais de vida, pois é nelas que se manifesta um Deus que entra na dor humana para curá-la por dentro, reconciliando, reerguendo e devolvendo sentido.
Mauro: Essa relação entre profecia e cumprimento também aparece na vida de Jesus?
Diego: Sim, de forma muito clara. O próprio Jesus, ao iniciar seu ministério, retoma Isaías. Na sinagoga de Nazaré, Ele lê: “O Espírito do Senhor está sobre mim…” (cf. Is 61,1–2) e, em seguida, afirma: “Hoje se cumpriu esta passagem” (Lc 4,21). Ou seja, não estamos diante de uma coincidência, mas de um cumprimento. Cristo se reconhece dentro dessa promessa.
Mauro: Ao contemplar o lenho da Cruz, quais aspectos mais o marcaram?
Resposta: O que mais me marcou foi perceber que a Cruz não é apenas um símbolo, mas uma revelação. Ali, cada palavra de Jesus ganha uma densidade única. “Pai, perdoa-lhes” revela uma misericórdia que rompe com a lógica humana. “Hoje estarás comigo no paraíso” mostra que a esperança é possível até no último instante. Assim, parece que a Cruz se torna um lugar onde tudo é redefinido.
Pergunta: E quanto às relações humanas, há algo que emerge dessa contemplação?
Diego: Sem dúvida. Quando Jesus diz “Eis o teu filho… eis a tua mãe”, Ele traz uma nova forma de relação. A dor não fecha, mas abre para o outro; a Cruz não isola, ela gera comunhão. É como se ali nascesse uma nova humanidade, ou seja, Maria é confiada à humanidade como mãe, tornando-se sinal de acolhimento, ternura e fidelidade. E, ao mesmo tempo, a humanidade é representada no discípulo, é confiada a Maria. Há aqui uma reciprocidade profundamente bela: Maria torna-se mãe de todos, e cada ser humano é chamado a reconhecer-se filho. Quando falamos dessa maternidade universal, isso também me remete ao título dado a Maria, Mater Ecclesia, Mãe da Igreja, expressão latina que também marca profundamente a minha história de fé.
Mas, voltando a dimensão do encontro, Jesus mesmo dilacerado pela dor, contempla em Maria não apenas sua mãe, mas a expressão mais pura da humanidade redimida, fiel, presente, perseverante até o fim. Maria é, para a humanidade, abrigo; e, para Jesus, consolação e beleza no coração do sofrimento. Assim, no auge da Cruz, não apenas a salvação se realiza, mas o amor se reorganiza, dando origem a uma nova família, nascida do dom total.
Mauro: Como compreender as palavras de Cristo na Cruz, especialmente: o grito de abandono, a sede e a expressão “Tudo está consumado”, como revelação do próprio mistério de Deus?
Diego: Essas palavras nos levam no coração do mistério pascal e só podem ser compreendidas a partir de uma chave profundamente teológica: a da autoentrega do Filho ao Pai, em favor da humanidade, no dinamismo do amor trinitário.
Quando Jesus clama “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”, Ele não expressa uma ruptura com o Pai, mas assume, em sua humanidade, a experiência limite do abandono. Trata-se de uma participação real na condição humana marcada pelo pecado e pela distância de Deus, ainda que Ele próprio seja sem pecado. Aqui, podemos dizer que Cristo desce até o mais profundo da condição humana para redimi-la desde dentro. É o cumprimento do que a tradição chama de kenosis: o esvaziamento radical do Filho, que se solidariza plenamente com a humanidade ferida.
Ao dizer “Tenho sede”, revela-se a fragilidade do corpo, o dinamismo do amor divino que deseja a comunhão. A sede de Cristo é, em última instância, a expressão do desejo eterno de Deus de reconciliar consigo todas as coisas. É a sede daquele que ama e que, por amar, se entrega até o fim, manifestando que a salvação não é imposição, mas atração amorosa.
E, ao proclamar “Tudo está consumado”, somos colocados diante da realização plena da obra redentora. Não se trata de um fim cronológico, mas de um cumprimento teológico: a missão confiada pelo Pai é levada à sua totalidade. O amor obediente do Filho alcança sua plenitude na Cruz, revelando que a glória de Deus não está no poder, mas na doação.
Mauro: À luz da fé e da tradição da Igreja, qual é a palavra definitiva da Cruz e como compreender, hoje, a proclamação “Eis o lenho da Cruz” como experiência viva para o cristão?
Diego: A palavra definitiva da Cruz é a entrega: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito.” Aqui está a síntese de todo o mistério pascal. Trata-se da expressão máxima da obediência filial do Cristo, que, no auge da dor, permanece em comunhão com o Pai. Essa entrega não é passividade, mas um ato plenamente livre, no qual a vida não é tirada, mas oferecida como dom. É nesse movimento que se revela a lógica mais profunda da redenção: a confiança absoluta que transforma a morte em passagem e a finitude em comunhão. Proclamar hoje “Eis o lenho da Cruz” é entrar nesse mesmo dinamismo. Não se trata de um enunciado litúrgico meramente memorial, mas de uma epifania contínua do amor de Deus na história. O que o profeta Isaías anunciou, Cristo realizou de modo pleno, e esse acontecimento permanece operante na vida da Igreja e no coração do mundo. Assim, contemplar o lenho da Cruz é ser interpelado existencialmente, ou seja, compreender e participar.