Por meio do Vicariato Episcopal para Educação e a Universidade da Arquidiocese de São Paulo e do Núcleo de Formação Continuada para Profissionais da Educação da Fundação São Paulo, desenvolvi, em conjunto com uma equipe multidisciplinar, uma série de atendimentos e processos de acompanhamento voltados à formação, assessoria e fortalecimento da atuação de gestores e mantenedores educacionais.
Desde os primeiros encontros, tornou-se claro que as demandas trazidas pelos gestores iam muito além de questões técnicas, revelando desafios diretamente relacionados às pessoas, às culturas institucionais e às decisões cotidianas. Esses encontros tiveram como propósito levantar e possibilitar estratégias nos processos de tomada de decisão, ampliar o repertório de práticas pedagógicas e administrativas e fomentar reflexões à melhoria contínua das instituições ouvidas.
Dos 77 gestores atendidos, destacam-se temas como avaliação institucional, liderança pedagógica e estruturação de projetos educacionais. Esses temas destacaram-se nas falas dos gestores, muitas vezes acompanhados de dúvidas, inseguranças e pelo desejo de assumir decisões mais alinhadas ao projeto institucional.
A partir desses encontros, gestores relataram maior clareza no desenho de prioridades e (re)organização de processos internos. Nesse percurso, o acompanhamento e as intervenções realizadas pelos gestores são fundamentais para a compreensão de que a gestão constitui, em si, um caminho pedagógico de conduzir os processo. Em muitos atendimentos, essa compreensão não estava dada de início, mas foi sendo construída à medida que os gestores refletiam sobre o impacto de suas escolhas no cotidiano escolar.
Essa compreensão foi sendo construída ao longo dos acompanhamentos: ao organizar tempos, espaços, relações e processos, o gestor passa a influenciar diretamente a qualidade das aprendizagens, o clima institucional e o desenvolvimento profissional das equipes.
Entre as temáticas que emergiram nos atendimentos com os gestores, a identidade institucional é apontada por 94% deles como uma de suas maiores dificuldades. Chamou atenção o fato de que essa dificuldade esteve presente tanto em instituições em processo de reorganização quanto naquelas com estruturas consolidadas. Compreendê-la implica reconhecer a missão, os valores, a história e a finalidade educativa da instituição, razão pela qual o acompanhamento favorece uma leitura crítica dessa identidade, evitando que ela se reduza a um discurso formal e desvinculado da prática cotidiana. No entanto, ao longo dos acompanhamentos, também se percebeu que, em alguns contextos, a ideia de “preservar a identidade” acaba sendo utilizada como justificativa para resistir a mudanças, revisões de práticas e processos de inovação.
Mais informações sobre o medo de resistir a mudanças:
A inovação aparece como a segunda dificuldade apontada pelos gestores, mencionada por 87% dos participantes, especialmente diante da necessidade de reposicionar institucionalmente suas escolas e responder às determinadas demandas. Em muitos casos, a inovação foi associada a expectativas externas e pressões sociais, mais do que a um movimento interno de revisão das práticas institucionais. Nesse contexto, os encontros com os gestores possibilitaram explicitar e diferenciar os conceitos de modernização, inovação e transformação, compreendidos como processos distintos, embora complementares.
Leia mais sobre os conceitos de modernização, inovação e transformação: https://www.revista-samayonga.ao/index.php/inicio/article/view/87
A modernização refere-se à atualização de ferramentas, recursos e processos, sem quaisquer rupturas com métodos ou atitudes, podendo-se manter a mesma lógica de funcionamento institucional. A inovação, por sua vez, vai além da atualização de recursos: implica propor algo novo no modo de ensinar, no currículo, na avaliação ou na organização da instituição, introduzindo abordagens metodológicas e organizacionais. Já a transformação representa um movimento mais profundo e estrutural, que envolve a revisão crítica dos fundamentos que sustentam a instituição, reconfigurando seus sentidos, seus vínculos, sua identidade e suas finalidades.
Ao longo dos atendimentos, ficou claro que esses conceitos nem sempre estavam diferenciados no discurso institucional, o que gerava expectativas desalinhadas e frustrações nos processos de mudança. Nesse processo, o acompanhamento dos gestores estimula uma postura investigativa e reflexiva, na qual a inovação se sustenta na experimentação, no (re)desenho de projetos, na análise de dados e na avaliação contínua das ações, abrindo caminhos para mudanças mais significativas e alinhadas ao projeto institucional.
A sustentabilidade configura-se como a terceira dificuldade apontada pelos gestores, mencionada por 84% das respostas. Trata-se de compreender, de forma integrada, as dimensões pedagógica, financeira, social e ambiental das instituições educacionais. Nas conversas com os gestores, tornou-se recorrente a percepção de que decisões cotidianas, aparentemente pequenas, produzem impactos significativos a médio e longo prazo.
O acompanhamento sistemático dos gestores contribui para ampliar essa compreensão, explicitando o impacto das decisões tomadas a médio e longo prazo e favorecendo o uso responsável dos recursos, o equilíbrio orçamentário e a responsabilidade social, sem perder de vista a centralidade do projeto educativo.
A morosidade nas ações institucionais aparece também na terceira posição, empatada com a sustentabilidade, sendo apontada como dificuldade por 84% dos gestores participantes. Trata-se, sobretudo, da dificuldade em responder de forma ágil e pontual às demandas, problemas e necessidades do cotidiano escolar, em razão da sobreposição de responsabilidades, da multiplicidade de frentes de atuação e das diferentes prioridades institucionais. Nas falas dos gestores, essa morosidade frequentemente veio acompanhada de sentimentos de sobrecarga e da sensação de que “tudo passa por mim”.
As análises realizadas entre os gestores indicam que essa morosidade está associada, em grande medida, à dificuldade de delegar responsabilidades, ao receio de errar e ao medo de perder o controle dos processos. Observa-se, ainda, que, em muitos casos, os próprios gestores acabam assumindo tarefas que deveriam ser realizadas por orientadores, coordenadores, pró-reitores ou outras instâncias intermediárias, justamente pela ausência de clareza na definição de papéis e funções institucionais.
A inclusão aparece como a quarta dificuldade apontada pelos gestores, mencionada por 81% dos participantes, indicando os desafios institucionais enfrentados na garantia do direito à aprendizagem e à participação de todos.
Durante os encontros, tornou-se claro que muitos gestores se sentem comprometidos com a inclusão, mas inseguros quanto aos caminhos institucionais para torná-la efetiva. Mais do que uma demanda pontual, a inclusão constitui um desafio institucional, que envolve a transformação da mentalidade das pessoas, a construção de uma cultura verdadeiramente inclusiva e o compromisso coletivo com a diversidade.
Nesse sentido, os encontros com os gestores promovem a reflexão sobre políticas, práticas e culturas institucionais, destacando a necessidade de oferecer suporte contínuo e formação adequada aos professores, bem como de investir na construção de estruturas cada vez mais acessíveis e inclusivas.
A formação das equipes pedagógicas e técnico administrativas aparece como a quinta dificuldade identificada pelos gestores, presente em 77% das respostas, o que reforça a necessidade de reconhecer as equipes como sujeitos de aprendizagem. Em muitos atendimentos, a formação apareceu associada à ausência de tempo institucionalizado para estudo, reflexão e acompanhamento das práticas. Isso implica investir em processos formativos contínuos, sistemáticos e colaborativos, alinhados às necessidades institucionais, aos desafios do cotidiano e às metas do projeto educativo.
A temática da saúde mental e do bem-estar emerge de forma recorrente nas falas dos gestores e passa a integrar o escopo do acompanhamento institucional, surgindo, em diversos atendimentos, de forma espontânea e sem estar prevista, o que sinaliza sua relevância no cotidiano institucional e reforça a necessidade de uma gestão atenta e sensível às dimensões humanas do trabalho.
Outra temática que emerge de forma significativa nas falas dos gestores é a governança, os riscos e o compliance, dimensões que, ao longo dos encontros, foram muitas vezes compreendidas apenas como exigências burocráticas, e não como instrumentos de fortalecimento institucional, razão pela qual, no âmbito do acompanhamento dos gestores, passaram a ser trabalhadas de forma integrada, favorecendo a construção de uma gestão mais consciente e responsável.
Nesse aprofundamento, governança, gestão de riscos e compliance passam a ser compreendidos como dimensões indissociáveis da própria missão educativa, na medida em que organizam a vida institucional, orientam a tomada de decisão e protegem o projeto pedagógico diante das complexidades do contexto atual. A governança, ao explicitar papéis, responsabilidades e fluxos decisórios, contribui para reduzir ambiguidades e fortalecer a confiança entre os diferentes sujeitos da comunidade educativa. A gestão de riscos, por sua vez, amplia a capacidade institucional de antecipar fragilidades pedagógicas, administrativas e operacionais, favorecendo escolhas mais conscientes e sustentáveis.
Já o compliance, quando integrado a esse processo, deixa de ser percebido apenas como cumprimento normativo e passa a assumir um caráter pedagógico, assegurando os valores institucionais, práticas cotidianas e exigências legais. Nesse sentido, o acompanhamento dos gestores favorece uma leitura mais crítica dessas dimensões, fortalecendo uma cultura institucional orientada pela responsabilidade, pela transparência e pela sustentabilidade da missão educativa.
Diante do exposto, os diálogos e reflexões desenvolvidos ao longo de 2025, com a participação de 77 gestores e mantenedores, possibilitaram identificar os principais desafios enfrentados pelas instituições. Essa compreensão foi sendo construída de forma progressiva durante os acompanhamentos, à medida que os gestores passaram a reconhecer as interdependências entre as diferentes dimensões da gestão, compreendendo-as como partes de um mesmo processo de fortalecimento e construção das práticas institucionais.
No percurso, a saúde mental e o bem-estar passam a integrar de forma constitutiva esse movimento formativo permanente. Ao longo do acompanhamento, tornou-se claro que a pressão por resultados, a dificuldade de delegar e a ausência de clareza institucional impactam diretamente os resultados, o clima organizacional e o adoecimento das equipes.
Como considerações finais, os acompanhamentos realizados ao longo de 2025 permitiram compreender que os desafios enfrentados pelas instituições educacionais estão relacionados à identidade institucional, à inovação, à sustentabilidade, à inclusão, à governança, à formação das equipes, à saúde mental e à organização dos processos. Essas dimensões apresentam-se de forma interdependente, exigindo dos gestores uma leitura sistêmica e integrada da gestão educacional.
Ao longo dos encontros, tornou-se perceptível que muitas das dificuldades apresentadas pelos gestores estavam relacionadas tanto à ausência de recursos e soluções técnicas quanto à necessidade de fortalecer culturas institucionais mais colaborativas, integradas e sustentáveis. Em diversos contextos, o medo da mudança, a sobrecarga decisória, a centralização de responsabilidades e a fragilidade dos processos institucionais acabavam limitando a capacidade de transformação das instituições.
O acompanhamento aos gestores também assumiu papel fundamental como espaço de orientação, escuta, reflexão crítica e fortalecimento institucional. Ao longo dos encontros, os participantes foram incentivados a ampliar seus olhares sobre a gestão, reconhecendo as conexões entre as escolhas cotidianas, o clima institucional, a qualidade das aprendizagens e a sustentabilidade institucional.
As experiências vivenciadas também fortaleceram a compreensão da gestão como um processo permanentemente formativo, humano e relacional. Isso implica reconhecer que a transformação das instituições exige acompanhamento, clareza de propósito e disposição para revisitar práticas, estruturas e modos de organização.
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