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Educação Disruptiva

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Identidade, Missão e Esperança: a relação entre a Carta Apostólica Desenhando novos mapas de esperança e a Videomensagem do Papa Leão XIV.

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Dom Carlos Lema Garcia

Diego Kenji de Almeida Marihama

Introdução
No contexto dos 60 anos da declaração conciliar Gravissimum Educationis, a
Igreja renova o seu olhar para a missão educativa, numa época marcada por
transformações aceleradas, tensões socioculturais e desafios tecnológicos inéditos.
Nesse cenário, dois pronunciamentos recentes do Papa Leão XIV ajudam a iluminar a
identidade e a responsabilidade da educação católica: a Carta Apostólica Desenhando
novos mapas de esperança, e a videomensagem proferida para o Congresso “Sem
identidade não há educação”, realizado em Madri.
Embora pertençam a gêneros distintos, o primeiro é um documento magisterial
de longo alcance; o segundo, um discurso pastoral dirigido a um público específico.
Ambos convergem em afirmar que a educação cristã perde sua alma sempre que se
distancia de sua identidade e de sua capacidade de gerar esperança. Este artigo apresenta
uma análise integrada dessas duas fontes, evidenciando pontos de ressonância que
podem inspirar colégios, universidades e comunidades educativas.

A Carta Apostólica Desenhando novos mapas de esperança

A Carta Apostólica de Leão XIV é um documento que resgata a tradição
educativa da Igreja para reinterpretá-la à luz das demandas do século XXI. O texto
percorre uma ampla memória histórica, desde a pedagogia dos Padres do Deserto até a
fundação dos primeiros colégios e universidades como destacado pelo Papa:

Na Roma do século XVII, São José Calasanz abriu escolas gratuitas para os
pobres, percebendo que a alfabetização e o letramento numérico são
dignidade antes mesmo da competência. Na França, São João Batista de La
Salle, “percebendo a injustiça causada pela exclusão dos filhos de operários e
camponeses do sistema educacional”, fundou os Irmãos das Escolas Cristãs.
No início do século XIX, também na França, São Marcelino Champagnat dedicou-se ‘de todo o coração, numa época em que o acesso à educação
continuava sendo privilégio de poucos, à missão de educar e evangelizar
crianças e jovens’. De modo semelhante, São João Bosco, com seu “método
preventivo”, transformou a disciplina em racionalidade e proximidade.
Mulheres corajosas, como Vicenza Maria López y Vicuña, Francesca
Cabrini, Giuseppina Bakhita, Maria Montessori, Katharine Drexel ou
Elizabeth Ann Seton, abriram caminhos para meninas, migrantes e os menos
favorecidos. Reitero o que afirmei claramente em Dilexi te: «A educação dos
pobres, para a fé cristã, não é um favor, mas um dever». Esta genealogia da
concretude testemunha que, na Igreja, a pedagogia nunca é teoria
desencarnada, mas carne, paixão e história (LEAO XIV, 2025, n. 2.3).

Todas essas tradições convergem na convicção de que a educação católica não é
um acessório da evangelização, mas um de seus modos mais concretos. Leão XIV
insiste que essa história não se reduz a um patrimônio estático: trata-se de um
dinamismo espiritual e intelectual que sempre soube se renovar, mantendo a unidade
entre fé e razão, pensamento e vida, saber e justiça.
A centralidade da pessoa é outro eixo estruturante da Carta Apostólica. A
educação cristã, segundo o Papa, compreende a pessoa como imagem de Deus e rejeita
sua redução a um conjunto de competências, algoritmos ou desempenhos mensuráveis.
A formação integral (espiritual, intelectual, afetiva, cultural, social e corporal) é
apresentada como caminho para construir uma cultura educativa que una profundidade e
responsabilidade. A partir desse horizonte antropológico, o Papa critica as abordagens
utilitaristas e tecnocráticas que fazem da educação um produto comercial ou
instrumento de mercado, e reafirma que o valor do processo educativo só pode ser
medido pela dignidade da pessoa e por sua capacidade de servir ao bem comum.

Esse patrimônio não é rígido: é uma bússola que continua a apontar o
caminho e a falar da beleza da jornada. As expectativas de hoje não são
menores do que as que a Igreja enfrentou há sessenta anos. Aliás, elas
ampliaram-se e tornaram-se mais complexas. Diante dos milhões de crianças
em todo o mundo que ainda não têm acesso ao ensino fundamental, como
podemos não agir? Diante das situações dramáticas de emergência
educacional causadas por guerras, migração, desigualdade e diversas formas
de pobreza, como podemos não sentir a urgência de renovar nosso
compromisso? (LEÃO XIV, 2025, n. 1.3)

Entre as contribuições mais originais da Carta Apostólica, destaca-se o conceito
de “constelação educativa”. Leão XIV propõe que escolas, universidades, congregações
religiosas, movimentos e iniciativas pastorais deixem de atuar como ilhas e passem a
compor redes colaborativas, capazes de partilhar práticas, formar alianças e responder
de maneira criativa às demandas do mundo. Essa imagem aponta para um modelo de
cooperação global que vai além da gestão institucional, implicando diálogo com a
sociedade civil, com o mundo universitário e com setores produtivos.

Cada ‘estrela’ tem o seu próprio brilho, mas juntas traçam um rumo. Onde no
passado havia rivalidade, hoje pedimos às instituições que convirjam: a
unidade é a nossa força mais profética. As diferenças metodológicas e
estruturais não são empecilhos, mas sim recursos. A pluralidade de carismas,
se bem coordenada, cria um quadro coerente e frutífero. Num mundo
interconectado, o jogo desenrola-se a dois níveis: local e global. São
necessários intercâmbios de professores e alunos, projetos conjuntos entre
continentes, reconhecimento mútuo de boas práticas e cooperação
missionária e académica. O futuro exige que aprendamos a colaborar mais, a
crescer juntos. As constelações refletem as suas luzes num universo infinito.
Como um caleidoscópio, as suas cores entrelaçam-se, criando ainda mais
variações cromáticas. Isso também se verifica nas instituições de ensino
católicas, que estão abertas ao encontro e à escuta da sociedade civil, das
autoridades políticas e administrativas, bem como dos representantes dos
setores produtivos e das categorias profissionais. Elas são chamadas a
colaborar ainda mais ativamente com esses grupos para compartilhar e
aprimorar os programas educacionais, de modo que a teoria seja
fundamentada na experiência e na prática. A história também nos ensina que
as nossas instituições acolhem alunos e famílias não crentes ou de outras
religiões, mas que desejam uma educação verdadeiramente humana. Por essa
razão — como já acontece —, devemos continuar a promover comunidades
educativas participativas, nas quais leigos, religiosos, famílias e alunos
compartilham a responsabilidade pela missão educativa juntamente com as
instituições públicas e privadas (LEÃO XIV, 2025, n. 8.1-8.3).

Outro ponto relevante é a reflexão sobre o ambiente digital e a inteligência
artificial. O Papa reconhece o valor da tecnologia e rejeita qualquer postura tecnofóbica,
afirmando que o progresso técnico faz parte do plano de Deus. No entanto, alerta para o
risco de uma eficiência sem alma, que empobrece a relação pedagógica e uniformiza o
pensamento.

A inteligência artificial e os ambientes digitais devem ser orientados para a
proteção da dignidade, da justiça e do trabalho; devem ser regidos por
critérios de ética pública e participação; devem ser acompanhados de uma
reflexão teológica e filosófica apropriada. As universidades católicas têm
uma tarefa crucial: oferecer uma “diaconia da cultura”, menos cátedras e mais
mesas onde nos possamos sentar juntos, sem hierarquias desnecessárias, para
tocar as feridas da história e buscar, no Espírito, a sabedoria que nasce da
vida dos povos (LEÃO XIV, 2025, n. 9.3).

A tecnologia, segundo o Papa, deve servir à humanização e não a substituir; por
isso, reforça a necessidade de educar para o discernimento crítico, a ética, a proteção de
dados e a construção de uma “digitalização humana”, em que poesia, arte, imaginação e
vulnerabilidade continuem sendo dimensões essenciais da aprendizagem.
O texto culmina reafirmando o Pacto Educativo Global, legado do Papa
Francisco, que propõe sete caminhos para reconfigurar a missão educativa: colocar a
pessoa no centro, ouvir crianças e jovens, promover a participação das mulheres,
fortalecer a família, praticar a inclusão, renovar a economia e a política e cuidar da casa
comum.

O Papa Leão XIV, assim adiciona três prioridades ao Pacto Educativo Global: a
vida interior como fonte de sentido, a relação ética com a tecnologia e a educação para a
paz. Assim, a Carta se apresenta como um mapa amplo que reúne identidade,
espiritualidade, análise de contexto e diretrizes para o futuro.

Às sete vias, acrescento três prioridades. A primeira diz respeito à vida
interior: os jovens exigem profundidade; precisam de espaços de silêncio,
discernimento e diálogo com a sua consciência e com Deus. A segunda diz
respeito à digitalização humana: educamos para o uso sábio da tecnologia e
da IA colocando a pessoa acima do algoritmo e harmonizando as
inteligências técnica, emocional, social, espiritual e ecológica. A terceira diz
respeito ao desarmamento e à construção da paz: educamos em linguagens
não violentas, na reconciliação, na construção de pontes, não de muros;
“Bem-aventurados os pacificadores” ( Mt 5,9) torna-se o método e o
conteúdo da aprendizagem (LEÃO XIV, 2025, n. 10.3).

A videomensagem do Papa Leão ao Congresso “Sem identidade não há
educação”

Em contraste com a amplitude da Carta Apostólica, a videomensagem do Papa
Leão XIV é uma exortação breve e pastoral, voltada diretamente aos participantes de
um encontro sobre identidade cristã realizado na Espanha. Seu discurso concentra-se
numa tese central: a identidade cristã é o fundamento de toda missão educativa. Leão
XIV observa que muitas instituições católicas experimentam hoje uma crise de
identidade ao adotarem modelos neutros, tecnocráticos ou excessivamente comerciais,
que acabam diluindo sua especificidade e enfraquecendo sua capacidade de formar
pessoas integrais.
Para o Papa, a identidade cristã não é um rótulo nem um diferencial de mercado,
mas a raiz profunda que dá sentido à existência da escola católica. Sem essa raiz, a
instituição perde coerência e propósito, torna-se funcional, mas não evangélica. Leão
XIV enfatiza que uma educação verdadeiramente cristã forma o caráter, enraíza a
liberdade no bem, cultiva a inteligência por meio da busca da verdade e integra
consciência, espiritualidade e responsabilidade social. Ele insiste que a transmissão dos
valores cristãos se realiza sobretudo pelo testemunho dos educadores, cuja autenticidade
é tão formativa quanto suas competências pedagógicas.
Além disso, o Papa lembra que vivemos em um mundo marcado por
fragmentação, polarizações e perda de referências éticas. Diante desse cenário, uma
escola católica deve ser lugar de encontro, diálogo e cuidado, capaz de oferecer critérios
sólidos de discernimento. A autenticidade da identidade cristã, portanto, não conduz ao

fechamento, mas ao compromisso; não cria muros, mas constrói pontes; não exclui, mas
acolhe. O discurso evidencia que a missão educativa da Igreja é sempre um ato de
esperança, que acredita na capacidade do ser humano de se abrir ao bem, à verdade e à
beleza.

Convergências entre os dois documentos

Embora diferentes em escopo e linguagem, os dois documentos convergem de
maneira notável na compreensão da educação católica. Ambos afirmam que a
identidade cristã é um elemento irrenunciável, não como marca institucional, mas como
fundamento antropológico, espiritual e cultural que orienta todas as dimensões da vida
educativa. E rejeita a redução da educação à técnica, ao desempenho ou ao mercado,
insistindo que a formação integral é caminho para restaurar a dignidade humana num
mundo cada vez mais utilitarista.
Outro ponto de convergência diz respeito à importância da esperança. Enquanto
Leão XIV, na videomensagem, a apresenta como uma categoria pedagógica e teológica
que estrutura a missão da Igreja, na Carta Apostólica vivencia como urgência pastoral
diante das crises contemporâneas. Em ambos, educar significa acreditar no futuro e
construir condições para que crianças, adolescentes e jovens possam ler a realidade com
profundidade e agir com responsabilidade. A educação aparece como obra comunitária,
envolvendo professores, famílias, alunos, Igreja e sociedade, numa teia de
corresponsabilidade que só se fortalece com diálogo e colaboração.

Diferenças fundamentais

As diferenças entre os documentos são complementares. A Carta Apostólica é
ampla, conceitual e analítica, funcionando como uma síntese histórica, antropológica e
espiritual da tradição educativa da Igreja. Já a videomensagem é direta, exortativa e
pastoral, chamando a atenção para uma urgência concreta: sem identidade, a educação
católica se desorienta. Enquanto na Carta Apostólica desenvolve uma reflexão que
atravessa temas como ecologia, tecnologia, história das instituições e Pacto Educativo
Global, na videomensagem o Papa concentra-se na vitalidade da identidade cristã no
cotidiano educacional/acadêmico.

Considerações finais

Educar é uma tarefa de amor que se transmite de geração em geração,
remendando o tecido rompido das relações e restaurando às palavras o peso da promessa: «Todo homem é capaz da verdade, porém, tudo se torna mais
fácil e suportável quando o avanço é feito com a ajuda de outros». A verdade
é procurada em comunidade (LEÃO XIV, 2025, n. 3.2).

A leitura integrada da Carta Apostólica “Desenhando novos mapas de
esperança” e da videomensagem do Papa revela uma profunda sintonia no coração da
missão educativa da Igreja. De um lado, o Papa oferece um mapa amplo que articula
tradição, inovação, espiritualidade e desafios; de outro, faz ressoar com vigor o
chamado para que as instituições educacionais recuperem a autenticidade de sua
identidade cristã. Ambos apontam para a centralidade da pessoa humana, para a
necessidade de formar comunidades educativas sólidas e para a urgência de integrar fé,
cultura e vida numa pedagogia que ilumine o presente e abra caminhos de esperança.
Em tempos de incerteza, fragmentação e aceleração tecnológica, esses dois
pronunciamentos mostram que a educação católica permanece como um farol: não um
refúgio, mas um laboratório de discernimento, inovação pedagógica e compromisso
profético. O desafio que emerge é claro: desenhar novos mapas de esperança com a
firmeza da identidade cristã e a coragem de imaginar o futuro.

Referências Bibliográficas

IGREJA CATÓLICA. Pacto Educativo Global: Vademecum. Roma: Congregação para
a Educação Católica, 2020. Disponível em:
https://www.educationglobalcompact.org/resources/Risorse/vademecum-portuges.pdf
acessado em 20 de novembro de 2025.
LEÃO XIV. Carta Apostólica Desenhando novos mapas de esperança. 2025. Disponível
em: https://www.vatican.va/content/leo-xiv/es/apost_letters/documents/20251027-
disegnare-nuove-mappe.html
acessado em 20 novembro de 2025.
LEÃO XIV. Videomensagem do Papa Leão XIV aos participantes do Congresso “Sem
identidade não há educação” que se realiza neste sábado, 22 de novembro, no Colégio
Nossa Senhora do Bom Conselho em Madri. 2025b. Disponível em:
https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2025-11/papa-a-identidade-crista-e-
fundamento-da-missao-
educativa.html#:~:text=Uma%20educa%C3%A7%C3%A3o%20aut%C3%AAntica%20
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acessado em 20 novembro de 2025.

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