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Educação Disruptiva

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Entre o que é melhor para a instituição e o que é mais fácil de fazer

Diego Kenji de Almeida Marihama

Redação, 23 de setembro de 2026  | “Vicariato Episcopal para Educação e a Universidade”.

Um dos desafios presentes na gestão está na capacidade de discernir entre aquilo que, de fato, contribui para o desenvolvimento da instituição e aquilo que, embora pareça mais simples, rápido ou confortável, exige menos esforço da equipe.

No cotidiano institucional, as decisões são tomadas em meio a inúmeras demandas, prazos, conflitos, necessidades pedagógicas, questões administrativas e expectativas das famílias. Nesse contexto, existe o risco de que a gestão passe a escolher, de maneira recorrente, aquilo que é menos trabalhoso, em vez de aquilo que responde de forma mais adequada às necessidades e aos objetivos educacionais (PARO, 2012).

Distinguir aquilo que é melhor para a instituição daquilo que é simplesmente mais fácil de fazer constitui uma questão importante para a gestão. Uma decisão pode ser operacionalmente simples e, ainda assim, produzir consequências negativas no médio e longo prazo. Da mesma forma, determinadas iniciativas podem exigir maior dedicação, formação da equipe, reorganização dos processos e acompanhamento, mas contribuir de maneira mais consistente para os alunos, os professores e para a própria instituição.

Essa questão exige uma compreensão mais ampla daquilo que podemos chamar de discernimento institucional.

O discernimento como competência da gestão

Discernir não significa escolher sempre o caminho mais difícil. Também não significa rejeitar soluções simples ou tornar os processos escolares mais complexos. Em muitas situações, simplificar uma rotina, eliminar procedimentos desnecessários ou reorganizar um processo pode ser justamente a decisão mais adequada.

O ponto central está no critério utilizado para fazer a escolha.

Uma gestão orientada pelo discernimento institucional precisa perguntar: O que esta escola realmente precisa? O que favorece a aprendizagem? Que decisão fortalece nosso projeto educativo? Que consequências essa escolha poderá produzir daqui a um, dois ou três anos?

Essas perguntas ampliam o olhar sobre a decisão, considerando aquilo que é mais conveniente no presente e aquilo que possui maior significado para a instituição.

Isso não significa ignorar os limites da equipe, os recursos disponíveis ou a necessidade de simplificar processos. Uma boa gestão precisa organizar prioridades e reconhecer as condições reais de implementação. O problema surge quando a facilidade operacional passa a ser utilizada como critério principal para decisões que possuem impacto pedagógico e institucional.

Quando isso acontece de maneira recorrente, pode ocorrer uma inversão de prioridades: o funcionamento da escola passa a orientar o projeto educativo, quando deveria ser o projeto educativo a orientar o funcionamento da instituição.

Por isso, o discernimento institucional pressupõe a articulação de diferentes dimensões: necessidade pedagógica, intenção estratégica, viabilidade operacional, impacto esperado e sustentabilidade da decisão.

A pergunta deixa de ser apenas “conseguimos fazer?” e passa a ser: “Aquilo que conseguimos fazer é aquilo que a instituição precisa fazer?”

Quando o fácil se torna um critério de decisão

A facilidade possui valor. Ela pode significar eficiência, economia de recursos, melhor organização e redução de burocracias. O problema está em transformar a facilidade em finalidade.

A instituição pode adotar determinada prática porque ela funciona bem, porque responde às necessidades atuais e porque utiliza adequadamente os recursos disponíveis. Nesse caso, a simplicidade é uma qualidade da decisão. Porém, essa decisão também precisa ser examinada à luz de sua sustentabilidade: é preciso perguntar se a prática poderá ser mantida ao longo do tempo, se os recursos necessários continuarão disponíveis, se dependerá de pessoas ou condições específicas e se sua continuidade permanecerá compatível com as possibilidades institucionais. Uma decisão pode funcionar hoje e, ainda assim, produzir um custo elevado no futuro. Por isso, a sustentabilidade introduz uma dimensão temporal ao discernimento institucional: não basta perguntar se uma prática funciona, mas se a instituição terá condições de sustentá-la sem comprometer seus recursos, suas pessoas e sua capacidade de responder às necessidades que virão.

Por isso, é fundamental uma gestão capaz de se articular institucionalmente, posicionar-se estrategicamente, reconhecer e mobilizar oportunidades e fortalecer a presença da instituição no cenário educacional. A sustentabilidade institucional depende, em grande medida, dessa capacidade de reconhecer as mudanças no ambiente, estabelecer relações estratégicas, comunicar seus diferenciais e mobilizar pessoas e parceiros em torno de um projeto institucional. Sustentar uma instituição, portanto, não significa apenas preservar aquilo que já funciona, mas desenvolver a capacidade de criar condições para que ela continue cumprindo sua finalidade diante de novos contextos, demandas e possibilidades.

Expressões como “sempre fizemos assim”, “dessa forma é mais fácil”, “vai dar muito trabalho mudar” ou “a equipe não vai aceitar” não são, isoladamente, suficientes para avaliar uma decisão. Entretanto, quando aparecem de maneira recorrente, podem indicar que a facilidade de execução está prevalecendo sobre a análise das necessidades, dos objetivos e das consequências da decisão para a instituição. O fato de uma decisão ser mais simples de executar, exigir menos esforço ou encontrar menor resistência não significa, por si só, que ela seja a mais adequada para a instituição. A gestão precisa considerar o custo da mudança, mas também o custo de permanecer como está, especialmente quando a manutenção de determinada prática limita a capacidade institucional de responder às mudanças do ambiente, mobilizar oportunidades e sustentar seu projeto no longo prazo.

Segundo Lück (2009, p. 91), a gestão precisa “superar os limites de práticas rotineiras e burocráticas vigentes”. Isso pressupõe criar espaços para analisar aquilo que se tornou habitual e perguntar se ainda responde às características e necessidades da comunidade.

A permanência de uma prática ao longo do tempo, portanto, não garante sua pertinência. Uma forma de organizar reuniões, acompanhar alunos, distribuir responsabilidades, comunicar-se com as famílias ou conduzir processos pedagógicos pode ter sido adequada em determinado momento e deixar de responder às necessidades da instituição posteriormente.

O custo da não decisão

Há, nesse processo, uma questão que nem sempre recebe a atenção necessária: não decidir também produz consequências. Toda escolha institucional produz efeitos, mas a ausência de uma decisão diante de um problema identificado também configura uma forma de posicionamento. Quando uma instituição reconhece uma necessidade e adia continuamente seu enfrentamento porque a solução exige tempo, formação, diálogo, investimento ou reorganização, o problema não permanece estático. Ele pode se deslocar para outras áreas, acumular efeitos, tornar-se mais complexo e exigir, posteriormente, respostas mais custosas.

O adiamento pode preservar, no curto prazo, a sensação de estabilidade e reduzir o desconforto provocado pela mudança, mas também pode transferir para o futuro um problema que tende a chegar acompanhado de novas demandas e menores possibilidades de escolha.

Por essa razão, o discernimento institucional precisa considerar não somente o custo de decidir, mas também o custo de permanecer sem decidir. A ausência de decisão pode produzir custos pedagógicos, quando compromete a qualidade das experiências de aprendizagem; custos organizacionais, quando amplia ineficiências, sobrecarrega processos e dificulta a coordenação institucional; e custos humanos, quando transfere para profissionais, estudantes e famílias os efeitos de problemas que deixaram de ser enfrentados no momento adequado. Há situações em que manter determinada prática parece ser a alternativa mais simples, mas sua continuidade pode consumir progressivamente recursos, energia das equipes e capacidade institucional de resposta. Decidir, nesse sentido, não significa agir diante de toda dificuldade, mas reconhecer quando a permanência de uma situação já passou a produzir um custo maior do que aquele necessário para enfrentá-la.

Nesse sentido, a pergunta da gestão não deve ser somente “quanto vai custar mudar?”, mas também “quanto pode custar continuar como está?” Toda decisão possui custos. Mudar exige investimento, mas permanecer também pode exigir recursos. A diferença está em compreender quais custos estão sendo assumidos, quais resultados são esperados e quais consequências podem surgir em cada alternativa.

Por isso, o discernimento institucional exige considerar tanto o custo da ação quanto o custo da não ação.

Urgência, importância e efetividade

O cotidiano escolar exige respostas rápidas. Nem toda demanda pode esperar uma análise extensa, e uma gestão responsável precisa responder às situações urgentes.

Entretanto, a urgência não pode ocupar permanentemente o lugar da importância.

A urgência solicita uma resposta imediata; a importância exige análise. A facilidade está relacionada ao modo como uma ação pode ser executada; a efetividade diz respeito aos resultados que ela produz. A manutenção preserva o funcionamento existente; o desenvolvimento questiona se aquilo que existe continua respondendo às necessidades da instituição.

Quando essas dimensões não são diferenciadas, a gestão pode tomar decisões adequadas para resolver o presente, mas insuficientes para construir o futuro institucional.

É por isso que a qualidade da gestão pode ser percebida também pela qualidade das perguntas que antecedem e sucedem suas decisões.

Não basta perguntar se uma ação foi executada ou se o problema imediato foi resolvido. É necessário perguntar se a decisão contribuiu para a aprendizagem dos alunos, para o desenvolvimento dos profissionais, para a melhoria dos processos e para o fortalecimento do projeto educativo.

Sustentar também faz parte de decidir

Outro aspecto importante do discernimento institucional está na capacidade de sustentar decisões que demandam tempo.

Algumas mudanças necessárias não produzem resultados imediatos. Exigem formação, acompanhamento, ajustes e persistência. Uma dificuldade inicial de implementação não significa, necessariamente, que determinada decisão seja inadequada.

É preciso distinguir entre uma proposta que precisa ser revista e uma proposta que precisa de tempo, acompanhamento e condições adequadas para produzir seus efeitos.

Sustentar uma decisão, portanto, não significa insistir indiscriminadamente em uma escolha. Significa acompanhar seu desenvolvimento, compreender os obstáculos encontrados, analisar os resultados e realizar os ajustes necessários sem perder de vista o propósito que orientou sua implementação.

A avaliação passa, assim, a integrar o próprio processo decisório.

A pergunta central deixa de ser simplesmente:

“Conseguimos fazer?”

e passa a incorporar uma questão mais importante:

“Aquilo que fizemos produziu o resultado que a escola precisava?”

Uma matriz para o discernimento institucional

Para apoiar esse processo, a equipe gestora pode utilizar uma matriz simples antes de decisões que tenham impacto pedagógico ou institucional significativo.

Matriz de Discernimento Institucional

1. Necessidade
Qual problema estamos realmente tentando resolver?
Essa necessidade é circunstancial ou revela uma questão estrutural?

2. Finalidade
Como essa decisão se relaciona com o projeto educativo da instituição?
Qual finalidade educacional pretende atender?

3. Impacto
Que efeitos esperamos produzir sobre os alunos, os profissionais, os processos e a instituição?

4. Viabilidade
Quais recursos humanos, financeiros, técnicos e organizacionais serão necessários?
A escola possui condições reais para implementar a decisão?

5. Sustentabilidade
A decisão poderá ser mantida ao longo do tempo?
Que formação, acompanhamento ou reorganização serão necessários?

6. Custo da decisão
O que será necessário investir em tempo, recursos, pessoas e energia institucional?

7. Custo da não decisão
O que poderá acontecer se nada for feito ou se a situação atual for mantida?

8. Acompanhamento
Como saberemos se a decisão produziu os resultados esperados?
Quais indicadores ou sinais deverão ser acompanhados?

Essa matriz não pretende substituir a experiência da equipe gestora. Seu objetivo é ampliar o olhar antes da decisão e evitar que a urgência, a conveniência ou a facilidade operacional assumam sozinhas o comando das escolhas.

Entre o possível, o conveniente e o necessário

A gestão escolar lida permanentemente com aquilo que é possível, conveniente e necessário.

O possível considera as condições reais da instituição. O conveniente considera aquilo que facilita determinado processo. O necessário considera aquilo que precisa ser enfrentado em razão das finalidades e das necessidades da instituição.

Essas dimensões podem coincidir, mas nem sempre coincidem.

Uma determinada ação pode ser possível, mas pouco necessária. Outra pode ser conveniente, mas produzir pouco impacto. Uma terceira pode ser necessária, mas exigir condições que ainda precisam ser construídas.

É justamente nesse espaço que o discernimento institucional se torna uma competência essencial da gestão.

O papel da equipe gestora não é escolher sempre o caminho mais simples nem tornar a escola permanentemente ocupada com mudanças. É compreender onde vale a pena colocar o tempo, os recursos e a energia das pessoas.

Algumas escolhas preservarão o funcionamento cotidiano. Outras exigirão mudanças. Algumas serão simples; outras demandarão formação, diálogo, acompanhamento e persistência.

A questão central é saber por que uma escolha está sendo feita, para que ela serve, quais consequências pode produzir e se a instituição possui condições para sustentá-la.

Uma gestão comprometida com seu projeto educativo precisa, portanto, olhar para além daquilo que consegue fazer com menor esforço no presente. Precisa considerar aquilo que a instituição precisa construir para responder às necessidades de seus alunos, de seus profissionais e da comunidade que atende.

No fim, gerir uma escola também é decidir onde colocar sua energia institucional.

E talvez uma das perguntas mais importantes para qualquer equipe gestora seja esta:

Estamos escolhendo aquilo que é mais fácil para a escola fazer ou aquilo que, diante de sua realidade e de sua finalidade educativa, é realmente necessário fazer?

É nesse espaço entre o possível, o conveniente e o necessário que se encontra uma parte significativa do trabalho estratégico da gestão escolar.

Referenciais Bibliográficas

BORGES, Ana Lúcia. Gestão na escola de educação infantil: ressignificação das práticas e mudança na cultura escolar. 2015. Dissertação (Mestrado em Gestão e Práticas Educacionais) — Universidade Nove de Julho, São Paulo, 2015.

LIBÂNEO, José Carlos. Organização e gestão da escola: teoria e prática. 6. ed. São Paulo: Heccus, 2015.

LÜCK, Heloísa. Dimensões da gestão escolar e suas competências. Curitiba: Positivo, 2009.

PARO, Vitor Henrique. Administração escolar: introdução crítica. 17. ed. São Paulo: Cortez, 2012.

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