Entre 2023 e 2024, estive à frente do Programa Ativamente como Diretor Pedagógico e participei da elaboração de seu embasamento pedagógico. O programa foi implementado em 25 escolas de Ensino Fundamental I e II da rede pública de Poços de Caldas, no sul de Minas Gerais, beneficiando cerca de 12 mil alunos. A iniciativa era uma parceria público-privada entre a Prefeitura Municipal e A Recreativa Editora.
Por meio do programa, as escolas foram equipadas com computadores e acesso à internet, incluindo as unidades da zona rural, que receberam antenas Starlink para conexão via satélite e contaram com monitores que se deslocavam até as escolas para ministrar as aulas do projeto. Essas ferramentas, aliadas às formações oferecidas aos professores e à integração de práticas pedagógicas inovadoras, ampliaram o acesso às tecnologias e fortaleceram a democratização do ensino, uma vez que todos os alunos foram inseridos no letramento digital desde o 1º ano do Ensino Fundamental, respeitando as particularidades de cada ano/série.
A proposta do Projeto Ativamente foi utilizar a tecnologia como instrumento de inclusão e equidade, especialmente em um cenário no qual a transformação digital se mostrou fundamental para a formação integral da população. O programa teve como base referenciais teóricos e aportes metodológicos discutidos e aprofundados em meus estudos de mestrado e doutorado, particularmente aqueles desenvolvidos sob a orientação e inspiração do professor José Moran. Esses fundamentos embasaram diferentes instâncias do programa, incluindo um dos requerimentos solicitados pela Câmara Municipal, disponível publicamente em:
https://pocosdecaldas.siscam.com.br/arquivo?Id=228427
Quanto ao Programa, foi organizado a partir dos 4 bimestres que compõe o ano letivo, sendo o 1º Bimestre um trabalho de apresentar dos “Caminhos das Tecnologias”, onde mergulharam nas raízes que deram origem a uma infinidade de avanços que moldaram a sociedade. Os objetos mais emblemáticos, como: a escrita representada pelo papel e a caneta, a roda que revolucionou a mobilidade, os brinquedos que encantaram gerações e os meios de transporte que encurtaram distâncias, serviram como pilares fundamentais para a evolução tecnológica. Essa temática foi abordada do 1º ano ao 9º ano, trazendo diferentes perspectivas e respeitando as características das idades/série.
Salienta-se que as abordagens específicas para cada faixa etária, necessitam estar em conformidade com as características únicas de cada período de desenvolvimento. As crianças pequenas, com sua curiosidade e imaginação, beneficiam-se de atividades lúdicas e interativas, enquanto os adolescentes necessitam de desafios que estimulem seu pensamento crítico e a construção de sua identidade. A transição entre essas fases, marcada por descobertas e transformações, reforça a importância de uma educação personalizada e inclusiva. (Marihama; Battistello, 2024, p.26-27)
A partir das habilidades e conteúdos desenvolvidos, os alunos puderam compreender que cada um dos artefatos apresentados, desempenhou um papel singular na configuração do mundo tecnológico e que muitos estão até hoje. A escrita, representada pelo papel e caneta, não apenas documentou pensamentos, mas também serviu e serve como uma ferramenta de comunicação essencial. A roda, ao simplificar a locomoção, teve um impacto transformador na eficiência e conectividade das sociedades. Os brinquedos, por sua vez, não foram meramente fontes de entretenimento, mas dinamizadores do pensamento criativo e da inovação. Consequentemente, os meios de transporte não apenas encurtaram distâncias, mas abriram portas para uma globalização cada vez mais interconectada.
No 2º bimestre criou-se um processo mãos na massa para dar vida a um protótipo inicial. Inspirados pelos autômatos, desde sua concepção até a formação das complexas engrenagens que os impulsionam, os alunos se dedicaram a entender os princípios fundamentais por trás dessas máquinas mecânicas.
Assim, consideram-se fundamental o conceito de autômatos, a partir de D’Addario (2022), que são dispositivos mecânicos ou sistemas automatizados projetados para realizar tarefas específicas sem a necessidade de controle humano constante, esses sistemas são baseados em uma lógica predefinida ou em regras programadas que orientam seu funcionamento, permitindo-lhes executar operações repetitivas ou complexas de maneira autônoma.
O mesmo autor (2022), considera que autômatos abrange uma ampla gama de aplicações, desde mecanismos simples que respondem a estímulos ambientais até sistemas mais complexos que simulam comportamentos humanos. Os autômatos podem assumir formas diversas, desde simples engrenagens interconectadas até sofisticados programas de software que operam em dispositivos eletrônicos. Esses dispositivos são historicamente fundamentais, com suas origens remontando à antiguidade, onde engrenagens mecânicas e autômatos hidráulicos eram utilizados como formas primitivas de automação. Ao longo do tempo, os autômatos evoluíram para incorporar avanços tecnológicos, incluindo a integração de eletrônica, programação de computadores e inteligência artificial.
Os autômatos desempenham um papel transformador em diversas áreas, como manufatura, na robótica, automação industrial, inteligência artificial e até mesmo nas artes, onde autômatos podem ser usados para criar performances teatrais automatizadas. A capacidade de realizar tarefas complexas com eficiência e precisão torna os autômatos uma ferramenta valiosa em muitos campos, impulsionando a inovação e a automação em diferentes setores da sociedade (D’ADDARIO, 2022).
A exploração dos autômatos como conceito permitiu desvendar sua origem histórica e seu papel na revolução tecnológica. As engrenagens, apresentadas como componentes essenciais, foram estudadas e compreendidas pelos alunos, preparando-os para o ambiente de construção prática de um autômato. Nesse momento, foi possível perceber a transformação da teoria em prática, com a aplicação dos conhecimentos adquiridos na criação de um autômato funcional. O processo, repleto de desafios e descobertas, uniu criatividade e técnica, resultando em protótipos adequados às características de cada ano/série. A seguir, apresenta-se um exemplo de autômato criado no projeto Ativamente.

Quanto ao3º bimestre, intitulado “os Caminhos da Energia”, uma trajetória que começa com a descoberta do fogo e se estende até as mais avançadas fontes de energia renovável. A busca humana por inovação e eficiência tem sido uma constante ao longo dos séculos e a energia desempenhou um papel fundamental na evolução das civilizações.
A jornada da energia inicia-se com o fogo, que foi a primeira fonte de calor e de energia utilizada pela humanidade. O domínio do fogo garantiu calor e proteção e revolucionou a forma de preparar os alimentos, inaugurando um novo capítulo na trajetória humana. Essa descoberta tornou-se um marco decisivo, simbolizando o começo de uma busca contínua por fontes de energia que, ao longo do tempo, moldaram a sociedade e impulsionaram os avanços tecnológicos.
Avançando na linha do tempo, os alunos conheceram a importância do carvão durante a Revolução Industrial. Este combustível fóssil não apenas aqueceu lares, mas também impulsionou as primeiras máquinas a vapor, revolucionando a indústria têxtil, o transporte ferroviário e a mineração.
O carvão consolidou-se como um pilar do desenvolvimento econômico, especialmente em regiões onde era abundante, evidenciando o papel estratégico dos recursos energéticos na organização das sociedades. A invenção da lâmpada elétrica por Thomas Edison, em 1879, inaugurou outra etapa de profundas transformações: ao permitir a iluminação eficiente e segura dos ambientes, ampliou a vida noturna das cidades, estendeu as atividades humanas para além do pôr do sol e impulsionou a criação de infraestrutura elétrica, fundamental para o avanço industrial e urbano.
No final do século XIX, a exploração do petróleo marcou o início de uma nova era. Além de substituir o carvão como principal fonte energética, o petróleo deu origem a derivados — como gasolina, diesel e plásticos — que se tornaram indispensáveis na vida moderna. A indústria automobilística, especialmente, expandiu-se com a disponibilidade de combustíveis fósseis, alterando profundamente o transporte individual e coletivo. Contudo, a dependência de fontes não renováveis expôs seus limites, acelerando a busca por alternativas mais sustentáveis.
Nas últimas décadas, a crescente consciência ambiental e a urgência da sustentabilidade impulsionaram investimentos globais em energias renováveis. A energia solar, eólica e hidrelétrica consolidou-se como alternativas viáveis e limpas para enfrentar os desafios climáticos. Tecnologias como painéis solares e turbinas eólicas tornaram-se mais acessíveis e eficientes, reduzindo a dependência dos combustíveis fósseis. Paralelamente, o desenvolvimento de baterias de alta capacidade e de sistemas de armazenamento permitiu integrar essas fontes ao sistema energético global de forma mais eficaz.
A engenharia de redes inteligentes (smart grids) também passou a desempenhar um papel crucial, otimizando o uso e a distribuição de energia. Com tecnologias avançadas de monitoramento e gestão, essas redes tornam o processo mais estável, eficiente e sustentável, garantindo um uso mais racional dos recursos.
Assim, os “Caminhos da Energia” representam não apenas uma trajetória de evolução tecnológica, mas também a capacidade humana de inovar e adaptar-se às demandas emergentes. Do fogo e do carvão à lâmpada elétrica e ao petróleo, e destas às formas mais avançadas de energia renovável, cada etapa dessa jornada expressa avanços significativos impulsionados pela ciência e pela engenharia.
Ao longo desse percurso, os alunos desenvolveram projetos e protótipos envolvendo energias renováveis. Para as turmas do 8º e 9º anos, a proposta incluiu a criação de uma cidade sustentável no Canva e a realização de experimentos práticos com materiais como condutores, isolantes, baterias, LEDs, sulfite e itens cotidianos. Esses experimentos foram fundamentais para compreender o uso sustentável e criativo da eletricidade.
Os estudantes do 6º e 7º anos concentraram-se na elaboração de infográficos sobre a evolução da eletricidade e seus impactos ao longo do tempo. Também desenvolveram quizzes sobre a origem do petróleo e seus efeitos ambientais, especialmente no transporte. Além disso, utilizaram o Google Sites para criar páginas temáticas, ampliando a compreensão crítica sobre o petróleo e os diversos meios de transporte.
Nos 5º anos, os alunos investigaram a Revolução Industrial e seus impactos na sociedade, com foco no papel das máquinas. Estudaram o tear mecânico, as invenções tecnológicas do período e a história da lâmpada, compreendendo como essas inovações transformaram o desenvolvimento humano e social.
As turmas do 3º e 4º anos trabalharam com uma abordagem narrativa, utilizando o personagem “Massimo” para explorar conteúdos como a descoberta do fogo, o funcionamento básico das locomotivas e a história do petróleo e dos transportes. A linguagem lúdica facilitou a assimilação dos conceitos científicos e históricos.
Quanto aos 1º anos, as aprendizagens foram conduzidas pelo personagem “Jacaré Leo”. As crianças conheceram os benefícios do domínio do fogo, os diferentes tipos de transporte e as energias renováveis, como a solar e a eólica. Também compartilharam as tecnologias que mais despertam seu interesse, em um ambiente de aprendizagem criativo e estimulante, que valoriza o protagonismo dos alunos (MARIHAMA, 2021).
Por fim, no 4º bimestre, o currículo ganhou uma abordagem mais imersiva voltada à exploração dos assistentes de tecnologia, com foco na Alexa (Amazon), na Inteligência Artificial (IA) por meio do ChatGPT (OpenAI) e na Internet das Coisas (IoT). Esses recursos tecnológicos, cada vez mais presentes no cotidiano dos alunos, têm demonstrado grande potencial para enriquecer o processo de ensino e aprendizagem, ampliando as possibilidades de inovação educativa.
Segundo o observatório da Fundação Itaú (2025), “84% dos estudantes relataram já terem utilizado a Inteligência Artificial, e somente 16% deles relataram nunca terem usado esse tipo de ferramenta, como o ChatGPT, Gemini, MidJourney ou DALL-E”. Isso quer dizer o Programa Ativamente proporcionou aos alunos uma experiência prática, pedagógica, interativa e alinhada às tecnologias emergentes.
Neste sentido, a proposta permite que os alunos dialoguem diretamente com a Alexa, compreendendo seu funcionamento, suas capacidades e limitações, e identificando formas de utilizá-la como ferramenta pedagógica. A atividade vai além de comandos básicos, estimulando a elaboração de perguntas criativas e a exploração de diferentes modos de interação com a assistente virtual. Essa vivência possibilita uma compreensão mais aprofundada sobre como assistentes de voz podem ser integrados às salas de aula e a outros contextos educacionais, oferecendo apoio a diversos componentes curriculares.
Complementando essa experiência, os alunos dos 8º e 9º anos participarão de uma oficina cuidadosamente planejada para promover uma imersão prática no universo da IoT e da automação. Durante a atividade, eles trabalharam em equipes para desenvolver protótipos de dispositivos inteligentes utilizando Arduino, LEDs, sensores e circuitos elétricos (ver proposta da oficina pedagógica).

O uso do Arduino, um microcontrolador amplamente empregado em projetos de robótica e automação, permitiu que os alunos aprendessem conceitos básicos de programação e eletrônica. Ao manipular componentes como LEDs e sensores, eles conseguiram criar dispositivos capazes de responder a comandos específicos ou executar ações automáticas, como acender luzes, medir temperaturas e detectar movimento.
Essa prática despertou a curiosidade e o interesse dos estudantes pela tecnologia, incentivando o desenvolvimento de habilidades essenciais para o presente e o futuro, como pensamento crítico, resolução de problemas e criatividade (MARIHAMA, 2021). Além disso, o trabalho em equipe na construção dos protótipos proporcionou experiências de colaboração e comunicação, competências cada vez mais valorizadas no ambiente profissional.
Essa foi a minha experiência na condução da equipe pedagógica para criar práticas que despertassem a curiosidade, a criatividade e o protagonismo dos alunos. Ao longo do processo, procuramos estruturar percursos formativos que estabelecessem conexões entre passado, presente e futuro da tecnologia. Desde os primeiros contatos com as bases históricas da inovação e os princípios fundamentais dos autômatos, até a construção prática de protótipos e a exploração de fontes de energia renovável, os alunos foram guiados por uma jornada que atravessou o primitivo, o analógico e o digital. Essa trajetória permitiu que eles compreendessem, de forma concreta e significativa, como a evolução tecnológica se desenvolve em camadas, transformando modos de conhecer, criar e interagir com o mundo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BOGDAN, R.; BIKLEN, S. – Características da investigação qualitativa. In: Investigação qualitativa em educação: uma introdução à teoria e aos métodos. Porto, Porto Editora, 1994. p.47-51.
D’ADDARIO, Miguel. Inteligência Artificial: Tratados, aplicações, usos e futuro. Babelcube Inc., 2022.
FUNDAÇÃO ITAÚ. Pesquisa Percepções sobre Inteligência Artificial na Educação. 2025. Disponível em: https://www.fundacaoitau.org.br/noticias/educacao/84-dos-alunos-e-79-dos-professores-ja-utilizaram-ferramentas-de-ia-diz-estudo acessado em 20/02/2025.
MARIHAMA, Diego Kenji de Almeida. Avaliação institucional externa e dos professores de Ciências: um estudo na Fundação Bradesco de Itajubá/MG. Dissertação (Mestrado em Ensino de Ciências) – Universidade Federal de Itajubá, Itajubá, 2016.
MARIHAMA, Diego Kenji de Almeida. Interfaces da Educação: perspectivas de dimensões teórico-práticas-Volume II. Editora Na Raiz, 2021.
MARIETTO, Marcio Luiz. Observação Participante e Não Participante: contextualização teórica e sugestão de roteiro para aplicação dos métodos. Iberoamerican Journal of Strategic Management (IJSM), v. 17, n. 4, p. 05-18, 2018.