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Educação Disruptiva

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A Formação de Gestores e Líderes Educacionais para a Era da Inteligência Artificial

Diego Kenji de Almeida Marihama

A formação de lideranças para a era da Inteligência Artificial constitui um dos grandes desafios. O avanço acelerado das tecnologias digitais, especialmente dos sistemas baseados em Inteligência Artificial, tem provocado mudanças significativas nos modos de aprender, ensinar, gerir instituições e tomar decisões. Esse cenário vem sendo discutido com Castells (2010) e Moran (2026), acerca da sociedade em rede, caracterizada pela intensa circulação de informações e pela transformação das relações humanas, profissionais e institucionais mediadas pelas tecnologias digitais. De forma complementar, Lévy (1999) destaca que a expansão do ciberespaço abre novas possibilidades de construção da inteligência coletiva, favorecendo processos colaborativos de produção e compartilhamento do conhecimento.

No campo educacional, tais transformações desafiam instituições e gestores a revisitar concepções tradicionais de liderança, formação e aprendizagem. Para Moran (2018), a inovação educacional está relacionada à capacidade de integrar tecnologias, metodologias e desenvolvimento humano em processos que promovam aprendizagens significativas. Nessa mesma direção, Fullan (2014) argumenta que a liderança atual exige profissionais capazes de conduzir mudanças institucionais em contextos complexos, mobilizando pessoas e construindo culturas organizacionais voltadas à aprendizagem contínua. Assim, a emergência da Inteligência Artificial amplia a necessidade de formar líderes preparados para interpretar cenários dinâmicos e orientar processos de transformação sustentados por valores e compromisso social.

A Inteligência Artificial não representa apenas a incorporação de novas ferramentas ao cotidiano das organizações. Trata-se de uma mudança de paradigma que altera a forma como os indivíduos acessam informações, produzem conhecimento, resolvem problemas e tomam decisões. Nesse contexto, a formação de lideranças não pode restringir-se ao domínio técnico das tecnologias emergentes. É necessário desenvolver competências relacionadas à reflexão crítica, à criatividade, à capacidade de discernimento e à compreensão das implicações éticas associadas ao uso dessas ferramentas.

Conforme destaca Marihama, Massa e Moran (2024a), a relação entre seres humanos e sistemas inteligentes deve ser compreendida a partir da complementaridade e não da substituição. As tecnologias ampliam possibilidades de análise, produção e organização do conhecimento, mas permanecem dependentes da capacidade humana de interpretar contextos, atribuir significado às informações e definir os rumos das ações institucionais. A liderança, portanto, torna-se cada vez menos associada ao controle de processos e cada vez mais vinculada à capacidade de orientar pessoas diante da complexidade.

Essa realidade encontra diálogo com as reflexões de Morin (2015), para quem a educação atual deve preparar os sujeitos para compreender a complexidade do mundo e enfrentar as incertezas inerentes à condição humana. Em um cenário marcado pela abundância de dados e pela automação crescente, os líderes são chamados a desenvolver uma visão sistêmica, capaz de conectar diferentes áreas do conhecimento e compreender os impactos das decisões em múltiplas dimensões da vida social. A formação de lideranças passa, assim, a exigir uma compreensão dos fenômenos tecnológicos, culturais, econômicos e humanos.

Ao mesmo tempo, a presença crescente da Inteligência Artificial reforça a importância de competências genuinamente humanas. Se as máquinas podem processar informações em larga escala, permanece sob responsabilidade dos líderes a construção de sentido, a mediação de conflitos, a promoção do diálogo e a definição dos princípios éticos que orientam a vida institucional. Nóvoa (2022) destaca que a educação do futuro dependerá da valorização das relações humanas, da colaboração e da capacidade de construir comunidades de aprendizagem. Essas características tornam-se ainda mais relevantes em um contexto no qual as tecnologias assumem funções cada vez mais sofisticadas.

A formação de lideranças para a era da Inteligência Artificial requer também o desenvolvimento daquilo que pode ser compreendido como sensibilidade estratégica. Trata-se da capacidade de perceber tendências, interpretar sinais de mudança e antecipar desafios antes que estes se manifestem plenamente. Tal competência aproxima-se da sensibilidade presente na arte, que permite captar nuances da realidade frequentemente invisíveis aos olhares mais imediatistas. O líder precisa cultivar essa postura investigativa e reflexiva para orientar processos de inovação que dialoguem com as necessidades das pessoas e das instituições.

Nesse contexto, emerge a necessidade de uma liderança capaz de integrar diferentes formas de inteligência. A inteligência humana, marcada pela criatividade, pela empatia e pelo discernimento ético, encontra na Inteligência Artificial uma possibilidade de ampliação de suas capacidades analíticas e operacionais. Ao mesmo tempo, a inteligência coletiva, construída nas relações entre indivíduos e comunidades, amplia a compreensão dos problemas e fortalece a construção de soluções compartilhadas. A articulação entre essas diferentes dimensões aponta para uma perspectiva de “cointeligência”, na qual pessoas, grupos e tecnologias colaboram na construção de respostas para desafios complexos.

A educação possui papel central nesse processo. As instituições educacionais são chamadas a formar profissionais e cidadãos capazes de atuar em um mundo em constante transformação, desenvolvendo competências que superam o domínio técnico e alcançam dimensões relacionais e culturais. Conforme argumenta Marihama, Oliveira e Moran (2024b), a utilização da Inteligência Artificial na educação demanda uma postura crítica e responsável, capaz de reconhecer tanto as potencialidades quanto os desafios associados às tecnologias emergentes. Formar líderes para esse contexto implica promover experiências educativas que estimulem autonomia intelectual, pensamento crítico, colaboração e compromisso com a sociedade.

A liderança do presente é caracterizada pela capacidade de criar ambientes de aprendizagem contínua, fomentar culturas de inovação e promover o desenvolvimento das pessoas. Em vez de ocupar apenas uma posição hierárquica, o líder será cada vez mais um articulador de ecossistemas, um curador de conhecimentos e um facilitador de processos coletivos de construção de sentido. Sua atuação estará orientada pela capacidade de conectar pessoas, ideias, tecnologias e propósitos em torno de projetos institucionais comprometidos com a transformação social.

Diante desse cenário, a formação de lideranças para a era da Inteligência Artificial deve ser compreendida como um processo que integra inovação tecnológica e o desenvolvimento humano. Quanto maior a presença das tecnologias nos processos institucionais, maior será a necessidade de líderes capazes de exercer discernimento, promover relações de confiança e orientar decisões fundamentadas em valores

Referências

CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. 14. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2010.

FULLAN, Michael. The Principal: Three Keys to Maximizing Impact. San Francisco: Jossey-Bass, 2014.

LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999.

MARIHAMA, D. K. de A.; MASSA, R. M.; MORAN, J. A relação homem com a máquina: como a Inteligência Artificial pode ajudar nas práticas pedagógicas?. Caderno Pedagógico, [S. l.], v. 21, n. 6, p. e5080, 2024a

MARIHAMA, D. K. de A.; MASSA, R. M.; MORAN, J. A relação homem com a máquina: como a Inteligência Artificial pode ajudar nas práticas pedagógicas?. Caderno Pedagógico, [S. l.], v. 21, n. 6, p. e5080, 2024a

MORAN, José. Metodologias ativas para uma educação inovadora. Porto Alegre: Penso, 2018.

MORIN, Edgar. Ensinar a viver: manifesto para mudar a educação. Porto Alegre: Sulina, 2015.

NÓVOA, António. Escolas e professores: proteger, transformar, valorizar. Salvador: SEC/IAT, 2022.

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